"Gorda".

domingo, julho 06, 2014

Olá, o meu nome é Catarina e eu sou gorda. Fui gorda a vida inteira, já nasci até com peso a mais mas na infância e durante todo o resto da minha vida decidi manter a linha - ou deverei dizer "a curva"? - porque nunca fui magra nem nunca sequer tive um episódio da minha vida em que o meu peso era normal. Não, sempre foi acima. Bem acima. Números não me interessam. Nem a quem ler, eles são apenas indicativos. Mas enfim, esse não é o problema. O problema é este: eu me aceito gorda. Eu não acho que tenha que ser diminuída, gozada, discriminada porque sou gorda. Eu não me acho feia - nem lá perto - e muito menos vou achar-me feia porque sou gorda. Mostrem-me um dicionário que diga que ser gorda é ser feia. Ou é ser doente. Ou melhor, ser gorda é ser uma pessoa que não se ama, não se cuida e é um lixo na humanidade e deveria ser exterminado. Pois é, ser gorda é simplesmente sofrer de obesidade, ter as gorduras acumuladas no corpo causando excesso de peso e que talvez, possam trazer doenças e problemas na saúde. Mas isso não é o ponto do texto.

Desde criança me sentia e me faziam sentir de parte porque era gorda. Era escolhida para guarda-redes nas equipas em educação física porque obviamente não tinha a resistência suficiente para andar a correr atrás de uma bola e porque, quiçá, ocupava mais espaço da baliza logo as bolas não entravam tão facilmente. Desde criança me chamaram de gorda, demonstravam como eu era gorda. Tinha 8 anos tinha que usar roupa de 14 e com 14 já tinha que andar atrás das roupas de números hiper mega grandes porque roupa de criança/adolescentes não servia em mim. "Só nas orelhas", diziam.
Ser gorda mexeu comigo. Toda essa coisa de exclusão, de gozação, fez de mim uma pessoa insegura. Mas como não, né? Fui habituada e cresci num ambiente onde eu já sabia que as pessoas iam reparar nas minhas formas redondas e comentar a respeito delas. Passava a ter medo e fugia de conhecer novas pessoas porque por mais simpática, educada, inteligente, cordial que eu fosse eu sabia, dentro de mim, que aquilo que ficava era "aquela gorda".

Porém, um dia, eu dei um basta. Eu olhei para mim no espelho e pensei "Tu és uma boa pessoa". Mais, eu olhei bem para mim e pensei "Tu és bonita. Esses olhos escuros e esse olhar, esse sinal no canto da boca. Olha, a tua boca é bonita. E, se calhar, muitas das magrelas queriam ter os teus seios." E, em vez de continuar na minha fase de querer fugir de tudo e todos, eu comecei a sair da minha bolha e, principalmente, a cuidar de mim. A ser vaidosa. Em ter gosto em arranjar a sobrancelha para fazer o meu olhar ainda mais bonito, a cuidar do meu cabelo, a usar roupas mais bonitas e que se ajustassem melhor ao meu corpo e, melhor, que fossem mesmo o meu número sem precisar de usar números acima e parecer um saco de batatas. Aprendi a gostar de mim. A achar que não deveria ter tantas estrias mas olha, são marcas minhas e pronto. Não me vou detestar por isso por algo que é meu e a mim pertence e, além do mais, sempre vão ali ficar independentemente de tudo. Não vou mais me diminuir e aceitar que me diminuam como pessoa porque sou gorda.

Aprendi que ser gorda nunca me impediu de fazer nada, nada das coisas que eu achava ser impossível pelo ambiente em que vivia como o simples facto de ser amada por alguém - coisa que eu achava que gordos, como lixo que são supostamente, nunca deveriam sentir - de ser desejada por alguém, de alguém me falar que eu sou linda, de alguém me admirar. Ser gorda não me impediu de nada que uma rapariga de agora 24 anos faça. Ser gorda, até, não me impediu de ter uma tatuagem bonita. De ter um trabalho. De ter amigos.

Tenho os meus dias "down" como é recorrente a cada mulher. Melhor, a cada ser humano. Somos por natureza insatisfeitos e não existe ninguém que dia que é 100% perfeito, 100% amando o seu próprio corpo ou esteja 100% satisfeito com tudo na sua vida. Mas esses dias são cada vez menos. E o melhor? O mundo aprendeu a me ver de outra forma. É quase que como ao me ver me aceitando, me aceitam também. Se eu mostro confiança em mim é isso que o mundo vê. O mundo vê, de mim, apenas o que eu quiser mostrar. E se eu quero mostrar que sou gorda? Quero. Mas sou uma gorda linda, alegre e irrito-me quando me querem fazer mudar essa visão de como "Tu serias mais feliz se fosses magra".

Sou gorda. E a partir do momento em que eu me aceito assim, chamarem-me de "gorda" passa-me ao lado. Não me ofendem por isso e eu não me escondo mais. Nunca mais.

Já dizia o anúncio do Matinal: Quem não gostar de mim, quem gostará?


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5 comentários

  1. Anónimo6/7/14 03:08

    É por tudo que está nesse texto e outras coisas que eu tenho orgulho de ti, que eu te acho linda e mais que tudo, que eu te amo. É gordinha sim, é a minha gordinha.

    Já li muitos textos de gordinha e o teu é dos melhores. Merecia ser publicado em mais lugares além do teu blog.

    Beijos...
    C.B.

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  2. Curvas ao poder ;)

    http://thepinkisthenewblack.blogspot.pt/

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    1. Certo! ;)

      Muito obrigada pelo teu comentário!

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  3. É assim mesmo Catarina.. Eu por acaso também sempre tive problemas de peso e à uns anos atrás perdi um pouco de peso.. Passei de um 42 para um 38, vá.. Mas o mais importante é aceitar como nós somos, é amar aquilo que temos e o mais importante é o nosso interior.. És bonita sim, e irás ser ainda mais. Um beijinho. *

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